HUAMBO - NOVA LISBOA



In: Coelho, Sebastião (2000). "A Mulemba da Maldição"





A Cidade Mutilada (e os Cidadãos?)


O Dr J. Martins Lopes (indissociável, na minha infância, ao Boletim & Boletinzinho), que viveu na cidade de Nova Lisboa-Huambo entre 1934 e 1952 (daí saindo um ano antes do meu nascimento, no dia da cidade), mantém uma centelha de esperança no ressurgimento da cidade.

Se isso dependesse do amor que todos os seus cidadãos lhe nutriam (amor tão excelentemente transcrito abaixo, duma forma que só o Dr Martins Lopes podia fazer), certamente que o ressurgir das cinzas já teria tido o seu epílogo.

O desmoronar das pedras da nossa cidade contunde-nos a alma - porque sobre elas caminhámos, amámos e sonhámos ...
porque em cada pedra estão inscritas de forma indelével as memórias de todos os residentes ...
porque a sua provocada desagregação, arrastando oportunidades sonhadas e um infindável sofrimento de inocentes concidadãos, mitiga proporcionalmente em nós um sentimento de revolta e uma grande impotência.

Obrigado pela prenda Dr Martins Lopes !!


Aos 21 de Setembro de 1912...
Carta a um antigo amor


in "O LOBITO", Setembro de 1999
por J. Martins Lopes

Saudosa Nova Lisboa de outros tempos:

Com o nome de "Cidade do Huambo", nasceste adulta em pleno mato. Foste um dos sonhos do genial visionário Norton de Matos, que aproveitou a inauguração de novo troço da linha férrea que rasgaria Angola até à fronteira Leste, para a sua solene fundação em 21 de Setembro de 1912. Nem todos previram o enorme alcance da extraordinária medida. Muitos a criticaram até, desabridamente.

Mas a tua implantação no Planalto equivalia a injectar no interior de Angola as energias que o levassem à floração plena. Estavas pois fadada para nobres destinos. Aconteceu porém o pior: a Grande Guerra de 14-18 mergulhou o mundo na destruição e debilidade.

Assim, só em 28 recebeste desvelos governativos e, mesmo estes, mais virtuais do que efectivos. Quando em 34 cheguei ao Huambo, foste para mim uma rotunda desilusão: vagueava no vago aglomerado, à procura do que deveria ser uma cidade. Não passavas porém de um esqueleto desconexo: casas incaracterísticas semeadas a esmo, sem o mínimo de condimentos urbanísticos. De dia, espreguiçavas-te ao sol dardejante do planalto; à noite, raros candieiros de gasómetro eram débeis pirilampos pregados no escuro.

Algo havia em ti, contudo, que se insinuava dentro de mim: a pouco e pouco, insidiosamente, foste-me conquistando. Só mais tarde me dei conta da transformação: fora afectado pelo feitiço angolano, refinado pelos teus atractivos. Numerosos, envolventes, dominadores...

Jovem professor de Letras, a convivência com a juventude espicaçava os comuns anseios de ver Angola e de te ver a ti a voardes alto: envolvi-me ardorosamente nos estremeções do teu despertar para o progresso então possível. Lisboa enviou finalmente o Plano Geral de Urbanização. A sua implantação iria empolgar já não apenas os respectivos responsáveis e alguns enamorados por ti, mas uma grande fatia da população citadina. Foi um fervilhar febril, abriram-se ruas, rasgaram-se avenidas, lançaram-se jardins. Obras do Estado e prédios de particulares brotavam a ritmo nunca visto. De menina mal-feitona converteste-te em donzela ciosa das suas potencialidades, empenhada em se valorizar por todos os meios.

Cada vez mais cativante e acolhedora, atraías simpatias e investimentos; inspiravas confiança e solidez; em número galopante, os teus residentes e muita gente de fora deixaram-se contagiar pela febre realizadora - economias possíveis, apoios de cooperativas e empréstimos hipotecários, eu sei lá... Foi bonito acompanhar essa fase do teu crescer e do teu aformoseamento. Por isso te apontei como exemplo de lançamento de novas terras. Eras bem um modelo de como Angola se valorizava, às vezes pelo contributo privado mais do que por directa intervenção do Estado. Devolvíamos a Angola - com alto juro e dividendos - o que de Angola colhíamos com enorme esforço, vivo apego e forte determinação.

O ritmo do teu crescimento causou inevitáveis desequilíbrios. Mas conseguiste emendar os mais salientes. Enriquecias em património, em nível intelectual e escolar, em cooperativismo, em solidariedade - o que, tudo somado, te vincou inconfundível personalidade.

Ao teu redor, um diadema de rainha: era a constelação de terras bonitas que contigo partilhavam progresso, paz, promoção social das populações planálticas. No seu conjunto - brancos, mestiços e negros - tinham conseguido um milagre singular: converteram o grão pobrissemo do milho, em riqueza para produtores e negociantes. Quanto vale o esforço bem ordenado, a persistência no trabalho, o comando honesto, o carinho pela terra!

Porque as tuas gentes praticavam tudo isso espontaneamente, eras um centro irradiante de prosperidade e bem-estar. Se te tivessem deixado continuar nesses trilhos, aglutinando cores e igualizando as pessoas em direitos, condições e meios, serias hoje uma das urbes cimeiras de todo o Continente Africano. Superando-as a todas na vastidão dos teus horizontes infinitos e pródigos para qualquer lado que a gente se virasse. Terra querida, fadada para tocar os céus, ó minha flor de altura!

Por que fatalidade és hoje um holocausto de destroços e aniquilação?

Será que, ao cair das primeiras chuvas, os cosmos, os lírios e os cólios brotarão da terra, a devolverem-te a esperança?

Por mim, acredito que ressurgirás das cinzas: a tua alma não morre, minha bem amada!

J. MARTINS LOPES

in "O LOBITO" (Set/1999)

Nota da Redacção:

O autor foi um dos mais ardorosos impulsionadores dos altos vôos que fizeram de Nova Lisboa, em curtos anos, a 2ª cidade de Angola. Com o capitão Leopoldo Gentil a presidir à Câmara; com o Dr, Alexandre Sarmento e meia-dúzia, Martins Lopes foi na "Voz do Planalto", no Rádio Clube do Huambo e noutros meios de divulgação o seu arauto. Ao transferir-se em 952 para o Lobito, não abandonou a causa, que era afinal a causa de Angola inteira: a sua combatividade musculada, séria e fecunda, apenas mudou de zona, como muitos dos nossos leitores puderam acompanhar em Angola.

Que ele não traiu aquele primeiro amor, fica patente nesta prenda de aniversário que por nosso intermédio oferece a Nova Lisboa - Huambo de hoje.






Actualizado em 27 de Julho de 2003

António Eduardo Monteiro Horta
Lobito: a minha 2ª cidade