Crónicas do Kandimba


No extinto servidor angolano da EBONet, estiveram disponibilizadas ao público 10 crónicas escritas por Sebastião Coelho. Com a fusão da EBONet, Netangola e Telesel em 2004 (neXus), não mais foi possível aceder ao conteúdo das crónicas.

Ainda consegui recuperar os textos a partir do endereço http://www2.ebonet.net/kandimba/, que só permitia a leitura da primeira crónica, pois os links para as restantes apontavam para os antigos já desactivados.

Porque considero ser de inegável valor histórico e literário (e respeitando todos os direitos autorais), aqui transcrevo na íntegra os textos recuperados do antigo servidor da EBONet, que Sebastião Coelho escreveu nos últimos anos da sua vida na Argentina, adaptando excertos do seu livro inédito "Manamafuika".



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA I - Angola País Africano

Este lugar marca o nosso ponto de encontro semanal. Virei aqui para conversar e contar-te coisas que podem interessar-te ou, simplesmente, entreter-te. Não sei quem és, se calhar vais ser uma pessoa diferente de cada vez. Mas se algum dia voltares, vais encontrar-me. Sou jornalista, o que não vem para o caso, porque sou, sobretudo, um angolano que tem a sorte de conhecer o seu país de ponta a ponta. É certo que muitas coisas mudaram e mudam todos os dias, na voragem dinâmica da vida. Procuro actualizar-me diariamente e ao longo da minha vida e da minha carreira, registei nos arquivos da memória, muitas notas sobre Angola e suas gentes, que gostaria de compartir com todos os que se aproximarem, curiosos.

À maneira de introdução, digo-te que em Angola, como em toda a parte, existem coisas boas e coisas más. Entre as coisas más, por exemplo, existe e cultiva-se o mito da riqueza. A todo o momento os angolanos falam de riqueza. Mas é tudo fantasia. Referem-se às riquezas do país, às riquezas que nunca foram desenterradas do sub-solo e das quais vamos disfrutar de um momento para o outro, sem esforço e por direito próprio. Mas, logo a seguir, as mesmas vozes comentam sobre a pobreza, a extrema pobreza que afecta o povo angolano. Estas posições extremadas são bem típicas da idiosincrasia deste povo que ignora, afinal, que a grande e verdadeira riqueza do seu país é o povo em si...

Existem as outras riquezas de que falam, especialmente petróleo e diamantes. Como também é autentica a pobreza de milhões de seres maltratados, afastados dos seus lugares de origem pela guerra, pelas diferentes guerras que se sucedem umas às outras sem solução de continuidade. Convido-te a conheceres um pouco do meu povo e seus hábitos e mitos, para que descubras por ti as verdades e as mentiras que se dizem acerca de um país fabuloso. Quero contar-te das coisas bonitas e das coisas feias, para que possas encontrar pelos teus meios o meio termo justo.

Tenho várias recordações guardadas ao longo dos anos e que não quero escamotear à tua curiosidade. São dados que não constam em nenhum lugar que não seja a minha memória. Contarei das gentes e dos costumes e das terras que conheci e também da realidade actual, actualissima, em sucessivas viagens sem itinerário pré-estabelecido. Por isso espero ter-te como companheiro de aventuras, de vez em quando. Agora, por favor, tem um pouquinho de paciência, enquanto me ocupo de uma questão que é, digamos, aborrecida, mas que não posso evitar. Refiro-me à localização geográfica de Angola.

Mas, se prestares atenção, verificarás que vale a pena. São informações necessárias para reconheceres coordenadas, para te situares no terreno como quando olhas para os cartazes turísticos que te indicam, com uma flecha e um círculo, o lugar onde te encontras: «Você está Aqui». Talvez, no teu caso pessoal, não necessites desta informação, mas tens de coincidir em que há gente com distinto grau de conhecimento, pessoas que não sabem tanto como tu e com quem tenho, também, de comunicar-me. Portanto, proponho-te que repartamos o mal pelas aldeias.

Sem grandes detalhes, vamos anotar algumas coordenadas geográficas. Indico dados aproximados e deixo para quem ama o rigor da exactidão fria dos números, a oportunidade de consultar um atlas. E tu, se puderes, agarra também num mapa-mundi ou no mapa de África e procura Angola. Se és angolano, será óptimo que possas recordar o teu país. Se estás a descobrir Angola, quando a localizes bem no mapa, passas a dispor de valiosa informação de base para situares as várias estórias que tenho para contar-te. Serão mais lógicas e mais fáceis de compreender.

Angola, como sabes ou talvez descubras agora, situa-se na África, na costa ocidental do continente, um pouco abaixo do Golfo da Guiné. Tens aqui a razão pela qual as nossas praias se espreguiçam todas junto ao oceano Atlântico, numa costa cuja extensão supera os mil quilómetros. A designação África surge nos começos do século II a.C. quando, a seguir à destruição de Cartago, os romanos conformaram um novo território, a que chamaram «Província de África». A partir daí, a designação expandiu-se a todo o continente.

Na actualidade, África alberga mais de meia centena de países, dos quais apenas quatro são vizinhos de Angola, verdadeiros vizinhos do lado, com quem comparte fronteiras. Envolvendo a província de Cabinda, a mais setentrional do país, situam-se os dois congos - a República do Congo – Brazzaville e a República Democrática do Congo – Kinshasa, ex – Zaire. Este país comparte, depois, a mais extensa fronteira de Angola, contornando país de Norte e Leste, até encontrar a fronteira com a Zâmbia. Bem a sul, em todo o sul, estende-se a Namíbia que avança para leste através da delgada mas compridíssima faixa de terreno, conhecida como a Franja do Caprivi, um estrambólico capricho europeu imposto no desenho das fronteiras africanas.

Olhemos agora o mapa da República de Angola. Visto desde certa distância, mostra duas partes descontínuas, uma situada a norte e outra, a maior, a sul do rio Zaire. Mas nem sempre foi assim. Em tempos idos, o território de Angola, estendia-se para oriente e cruzava a África, até Moçambique. A separação dos dois países deve-se à exigência do ultimatum que Portugal recebeu da Inglaterra para abandonar os territórios do chamado mapa «cor-de-rosa». Mais tarde, também a província de Cabinda foi separada, geograficamente, do resto do território, pelos interesses coloniais das grandes potências europeias.

Cabinda, no início da colonização, tinha continuidade territorial, pois a foz do rio Zaire pertencia inteiramente a Portugal. Só muito mais mais tarde os países europeus, de maior peso político-militar, obrigaram à internacionalização do rio. Portugal teve de abandonar a margem norte onde se instalou a Bélgica, no corredor de Boma e a província de Cabinda ficou isolada de Angola, recebendo em compensação, a zona de Belize, encravada no Maiombe.

Portanto, na actualidade, Angola estende-se desde o paralelo cinco e meio, no extremo norte da província de Cabinda, até ao paralelo 18, na fronteira com a Namíbia, país que comparte toda a fronteira sul, devido à existência da já citada franja do Caprivi, onde os rios Cuito e Cubango se juntam, antes de flectirem para o Botswana e perderem-se nos pântanos. Não sei explicar como nem porquê, porque nunca tive a sorte de ir ao Botsawana e ver com os meus próprios olhos este fenómeno dos rios que se somem na terra e que sempre me intrigou.

Mudando de parâmetro. No sentido da largura, a ponta mais ocidental de Angola situa-se na península dos Tigres, antes do meridiano 12. O extremo oriental coincide, praticamente, com o meridiano 24, no saliente de Cazombo, que é um dente ou pedaço de terreno que penetra em território da República Democrática do Congo. A existência desta estranha saliência diz respeito a outra estória da colonização que fica para nova oportunidade.

Como vês, de relance, o mapa de Angola tem a forma de quadrado que, se fosse perfeito, teria cerca de 1.100 quilómetros de lado. A superfície totaliza 1.276.000 kms2 o que significa que, comparada com a Europa, Angola é tão grande que, nela caberiam, juntos, sete países do ocidente europeu: Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Dinamarca.

Em linha recta, a cidade do Recife, situada no extremo oriental do Brasil, constitue o lugar americano mais próximo de Angola. São Salvador da Bahia está, sensivelmente, no mesmo paralelo de Benguela e em anos passados as duas cidades estiveram ligadas por interesses mútuos que eram negócios de uns poucos. Na actualidade o voo directo Rio de Janeiro-Luanda dura cerca de oito horas no sentido do movimento da Terra e sete horas no sentido contrário, isto é, uma hora menos. A diferença deve-se a que o movimento de rotação do Planeta vai aproximando a cidade do Rio, do avião cujo voo procede de Luanda.



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA II - Angola País de Contrastes

Benvindo meu amigo ! Sabia que voltavas e cheio de curiosidade. Como é Angola ? A sua situação geográfica bem no coração de África parece determinar que seja um país tropical. Teoricamente é certo, mas apenas isso. Na prática é um país tão vasto que possue diferentes climas que variam em função da latitude e da altitude, da existência do deserto ou da floresta, da proximidade do mar ou a da continentalidade das regiões. Também influem outros factores circunstanciais, como a existência moderadora da Corrente Fria de Benguela.

Dum modo geral, o trópico sente-se apenas na faixa costeira e atinge a sua maior intensidade em Cabinda, onde o clima é quente, com temperaturas médias que rondam os 30 graus, havendo abundância de chuvas. Este tipo de clima sente-se, igualmente, nalgumas regiões e vales da margem esquerda do rio Congo, abrangendo o interior das províncias do Zaire, Uije e Bengo, também caracterizadas pela floresta, mas começa a modificar-se à medida em que caminhamos para sul. Até à cidade do Sumbe a franja litorânea abrange uns 100 quilómetros de largura, é quase plana e regista altitudes inferiores aos 200 metros. A sul do Sumbe a faixa costeira é mais estreita e o clima, desértico.

A altitude média do território ronda os mil e duzentos metros. As montanhas de altitude superior 1.500 metros encontram-se entre os rios Cuanza e Cunene. Aqui se situa, afastado do mar cerca de 200 quilómetros, o cordão montanhoso que acompanha a costa e chega no morro do Moko a 4000 metros de altitude. No planalto o clima é frio e seco, registando-se na zona da serra da Chela temperaturas inferiores a zero graus centígrados, em determinadas épocas do ano. A região montanhosa termina sensivelmente a oriente do meridiano do Cuito e partir daí começa um declive que se vai acentuando para o leste até coincidir com as enormes planícies africanas, as chamadas chanas ou anharas, de clima extremamente seco.

Em Angola existem apenas duas estações, a época das chuvas, que se estende de 15 de Agosto a 15 de Maio e o tempo do cacimbo ou do frio ou da seca, que vai de 15 de Maio a 15 de Agosto. A sul de Benguela, na zona litorânea, um sub-deserto transforma-se, aos poucos, no deserto do Namibe. A sul do Tômbua acentuam-se as condições desérticas e ao cruzar-se a fronteira sobre o rio Cunene, entra-se em território da República da Namíbia, onde começa o deserto do Kalahari ou da Namíbia.

Como enunciei no começo, a corrente fria de Benguela constitue um dos mais importantes factores de moderação climática do país. Como funciona este assunto ? De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil, que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Começa então a desviar-se para nordeste, em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se corrente fria de Benguela. Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Tômbua e Namibe.

A diversidade de climas e regiões implica a existência de uma flora e fauna riquissimas. A teca e o pau rosa são duas das mais caras e lindas madeiras que se conhecem e podes encontrá-las em Angola. Quanto a animais, depois de tudo o que te contei, espero que não te surpreendas se te digo que à rica fauna angolana, da qual fazem parte leões e elefantes, hipopótamos, girafas e rinocerontes e outros mamíferos de grande porte, tens que juntar as focas e os pinguins.

Quando se cita a fauna angolana, quase nunca se fala da sua existência, mas nos meses de Junho ou Julho, podes ver focas e pinguins, esguios e velozes, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou, refastelados nas areias das praias, tomando sol como qualquer bacana. Na mesma época também é usual verem-se famílias de golfinhos brincalhões, exercitando o seu costume de salvar náufragos, porque, para eles, qualquer humano nadando junto à praia, é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com muita delicadeza.

A partir da antiga Angra do Negro ou Moçâmedes, que hoje se chama Namibe, os albatrozes ou alcatrazes voam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajam para sul. A sua presença deve-se também à corrente fria de Benguela, modeladora do clima e modeladora da costa. A ela se deve a existência das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios. O Cunene, que demarca a fronteira sul, dá origem à península que conforma a Baía dos Tigres. Mais ao norte a restinga do Lobito é consequência dos aluviões transportados pelo rio Catumbela. A península do Mussulo e ilhas que a acompanham, derivam dos sedimentos do rio Cuanza. São bonitos lugares de praias maravilhosas.

Sobre a foz do Zaire, que as divide e arrasta para o meio do oceano, as águas frias da corrente de Benguela chocam-se com as águas quentes que descem do Golfo da Guiné. Na zona de encontro formam-se duas bolsas térmicas, com importância e influência na ictiologia. Os peixes de água fria não cruzam a barreira da água quente e os peixes de água quente detestam penetrar nas águas frias. Este fenómeno justifica a riqueza ictícola de Angola, hoje muito depedrada por abusos de pesca, falta de fiscalização e falta de consciência ecológica de empresas e pescadores que não pensam no dia de amanhã.

Antes da independência, em 1975, a pesca de Angola tinha importância no mundo, porque o país ocupou, alguma vez, o segundo lugar na escala dos maiores produtores, logo a seguir à República do Perú. Como riqueza, deu origem a vários episódios de que me recordo e que são estranhos e surpreendentes capítulos da história. Não faltes ao próximo encontro. Assim te conto.



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA III - Angola e o Peixe Aventureiro

A leitura é uma das minhas paixões de criança. Fascinavam-me os livros que devorava à luz duma vela que se consumia demasiado rápido para a minha voracidade leitora. Consequentemente, fui topando com relatos de todo o tipo, incluindo alucinantes descrições sobre a antiguidade. Recordo-me de aventuras de caça que eram tão incríveis como cómicas e que hoje, no auje do turismo mundial, poderiam ser apresentadas como «grandes excursões venatórias na antiguidade».

Participantes directos dessas caçadas eram alguns dos nossos mais queridos antepassados, pertencentes ao clã dos trogloditas. Só esses invejáveis senhores, tão barbudos quanto musculosos e destemidos, seriam capazes de semelhantes aventuras-loucuras, metendo-se só com um pau, no meio das manadas de bizontes e mamutes, dispostos a caçá-los à cacetada. É certo que os seus rostos viris, os seus corpos compactos, infundiam respeito e também é certo que usavam, para a cerimónia, não apenas uns paus. Eram tremendas cachiporras, o que não deslustra a sua coragem para enfrentarem as bestas e abatê-las à paulada, com a única finalidade de obter carne para as criancinhas.

Contudo, nem vasculhando bem na memória, me lembro de ter encontrado, com a mesma profusão, histórias ou textos ou desenhos alusivos às grandes pescarias dessa mesma época. Talvez porque seriam menos emocionantes as lutas contra as «sardinhas-ponta-de-espada», descritas mais tarde como «barracudas», pelo famoso sr. Hemingway, o pai do «Velho e o Mar». Nunca encontrei material sobre aventuras de pesca na antiguidade, embora admita que devia ser assustador o «bacalhau-piranha» desse tempo, transformado depois, seguramente em vulgar tubarão. Peixe enorme e aguerrido, de escamas grossas e repelentes, sempre exibiu a sua sólida dentadura com inefável e comprometedor sorriso colgate. Tudo isto inventei, porque nunca encontrei literatura adequada e não me repugna pensar que vem desse tempo a má fama das piranhas.

Apesar da minha falta de informação, creio que os cavernícolas também comiam carne de peixe, embora muita gente continue a insistir, ainda hoje, em que carne é carne e peixe é peixe... e que peixe não puxa carroça. Desconheço as razões de tão condenável discriminação exercida contra a minha cultura, pelos ilustradores e cronistas desses tempos imemoriais. Apenas sei que nunca vi nem me chegaram às mãos, textos ou desenhos testemunhando as grandes pescarias dos primórdios.

Dito o que está dito, seria mais fácil para mim avançar na carne e esquecer-me do peixe, mas esse não é, definitivamente, o meu objectivo. Não quero entrar pelo lado fácil que utilizam todos os contadores de estórias, descrevendo os grandes animais da selva e as grandes caçadas. Não descuidarei alguma incursão futura no reino de el-rei leão, rei dos animais e ao reino do elefante, o rei verdadeiro, sem corte e sem juba, utilizando, como convem, algum delicioso relato de Pratas, Galvão e Cabral, o trio que se ocupou detidamente «Da Vida e da Morte dos Bichos». Mas não hoje.

Prefiro conduzir-te através do tema aliciante dos peixes e das pescas em Angola, em tempos idos. Já te expliquei a razão da riqueza ictícola dos mares de Angola. Se não te lembras, basta consultares os apontamento que te deixei sobre a nossa conversa anterior, acerca da influência da corrente fria de Benguela. Hoje proponho falar-te de algumas coisas que registei na memória acerca de hábitos, costumes e travessuras relacionadas com as pescas em Angola. Melhor dito, vou contar-te acerca de hábitos, costumes e travessuras relacionadas com as pescas. E à margem e a par e passo, consignarei um necessário vocabulário de termos angolanos que te ajudem à melhor compreensão da minha linguagem maculada por vezes com termos locais que não encontras nos dicionarios.

Depois, se quizeres adentrar-se em aspectos mais técnicos e antropológicos, aconselho-te consultar autoridades como John Smith, o ictiólogo sul africano que estudou detidamente os mares angolanos e com quem aprendi acerca de bolsões térmicos e curiosas migrações de peixes no Atlântico Sul. Ou então, procura algum escrito do famoso Dr. Zeferino Cruz, que além de dentista era um pescador amador de grande sabedoria e representante em Angola da International Fishing Association, o organismo que controla e outorga os records mundiais. Palavra do dr. Zeferino era palavra sagrada. Ou consulta outros investigadores locais como José Redinha, Carlos Westerman, Henrique Abranches ou D. António de Almeida.

Por exemplo, uma das estórias alucinantes que prometo contar-te numa das proximas oportunidades, provem, justamente, das impagáveis descrições de D. António, que foi governador da antiga província do Bié e Moxico, na época colonial e bem nos começos da República Portuguesa. Homem culto e respeitado pelos republicanos, nunca abdicou da sua condição de nobre e como tal, manteve sempre o seu Don, que herdou juntamente com as veias pujantes de autêntico sangue azul da mais pura fidalguia portuguesa.

Mas lá chegaremos. Entretanto, cuidado com generalizar casos particulares num país tão grande e diverso como Angola. É imprudente, na medida em que o que é válido para o norte pode não servir para o sul e as coisas do litoral não têm expressão no interior. O mar é um bom exemplo do que digo. Para milhões de pessoas que vivem no mato e nunca o viram, o mar não passa de um mistério longínquo e insondável. Consequentemente, para muitos destes angolanos, o hábito de comer peixe – e falo exclusivamente de peixe seco – é recente. Iniciou-se na época colonial, quando os transportes facilitaram o envio de «malas» de peixe para o interior.

Diziam-se «malas» porque tinham a dimensão das antigas malas de correia e, como elas, despachavam-se tal ou tal lugar, se era um negócio legal. De outro modo, a coisa era muito diferente, era uma aventura africana diária, de alto quilate e que proporcionou grandes fortunas e imensas desgraças. Seguiremos na proxima.



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA IV - Angola, Peixe e Pecadores

Já te contei a razão pela qual aos fardos de peixe seco lhe chamavam «malas de peixe». Acrescentarei que todas tinham o mesmo aspecto, a mesma forma, dimensões precisas e o peso líquido de 30 quilos. De um modo geral havia grande respeito pela qualidade e apresentação do produto, cuidado que não se notava noutras actividades industriais.

O peixe, sem cabeça, fosse corvina ou carapau, depois de seco e salgado, devia acomodar-se em camadas sobrepostas e em zig-zag simétrico, «cabeça com rabo, rabo com cabeça». Formava blocos compactos que deviam ser atados e contidos em esteiras feitas com fibra grossa de mateba. As malas de peixe ganharam tal popularidade e valor comercial no interior de Angola que, em 1950 e anos seguintes, se transformaram no principal produto de candonga interna do país.

Porque razão se contrabandeava peixe seco ? Simplesmente porque a secagem e o transporte estavam regulados e obedeciam a regras claras estabelecidas pelo Estado e aplicadas pelo Grémio dos Industriais de Pesca. Tudo isto tinha que ver com sanidade e impostos. Quem se desviasse destas regras era considerado marginal e perseguido. Mas o não cumprimento da lei dava lucro fácil e volumoso. Aos industriais e aos candongueiros que entravam no negócio ilegal, o que gerava intrigas, delações e lutas ferozes. Os camiões que transitavam clandestinamente ou seja, com cargas não fiscalizadas, deviam escapar-se a corta mato e tinham os seus caminhos exclusivos que atravessavam a vasta anhara de Benguela. Sobre a areia, as picadas estendiam-se e entrelaçavam num espectacular labirinto, cujas curvas e contra curvas eram dominadas, apenas, por duas categorias de camioneiros, os autenticos «candongueiros» e os «pecadores».

E não era candongueiro quem queria. A própria natureza do delito impunha duras condições. Dinheiro para o negócio, coragem e decisão para enfrentar tanto a polícia como os ladrões que faziam de polícias, boas armas, incondicionais ajudantes ou companheiros de viagem que fossem bons atiradores e, sobretudo, um camião novo, agil e rápido, para evitar encrencas. A partir daqui a mercadoria ou seja o «peixe seco» comprava-se em qualquer pescaria ou salga e havia muitas ao longo da costa, legais ou clandestinas, desde Benguela à Baía dos Tigres e todas dispostas a vender por «dinheiro doce» as malas de peixe que escondiam ou lhes sobravam.

Reconhecidamente, o grande entreposto situava-se na Baía Farta e praias dos arredores, especialmente a Caóta e Caótinha. O negócio era à vista e sempre de noite. Poucos se arriscavam durante o dia. Carregava-se o camião, tapava-se com lonas o melhor que se podia e no acto pagava-se a mercadoria, «cash» e mais barata do que a tabela oficial. Esse era o cerne do negócio, facilmente denunciado pelo cheiro nauseabundo e persistente do peixe seco, que deixava vestígio ou esteira odorífera durante quilómetros, depois da passagem do candongueiro. O cheiro não deixava ocultar a carga aos fiscais que andavam bem armados, ganhavam bem e ainda por cima recebiam metade do valor da multa. Fiscais eram polícias comuns ou guardas fiscais que se passeavam pelas entradas e saidas das cidades principais à caça da multa.

Uma vez em andamento o candongueiro não parava mais e não baixava dos cem quilómetros por hora, escapando-se. Escolhia o caminho como uma lotaria ou inventava novas picadas que só ele conhecia. Se, por acaso, se encontrava com a fiscalização, estavam em risco a carga, o camião e o modo de vida. Velocidade e tiros eram as armas que entravam em jogo. Era um vale tudo. A polícia atirava a matar e de cima dos camiões da candonga, os ajudantes também atiravam a matar.

Dessa guerra e da velocidade dependia a vitória da lei ou a sobrevivência do rico negócio de vender peixe seco na clandestinidade. Contudo, os fiscais não eram o único perigo que o candongueiro enfrentava na estrada. Havia também os falsos fiscais, que eram candongueiros ladrões. Diziam-lhes «pecadores», porque naom só assaltavam os transportistas legais, como se encarniçavam sobre os candongueiros «bons», para lhes roubarem as cargas e completarem eles o negócio.

Todas as noites havia, em qualquer lugar do mato e sem testemunhas, estórias fortes de perseguições e roubos e tiros. Se alguém ficava no terreno, os leões ou os mabecos encarregavam-se de limpar o terreno... As malas de peixe e os transportes desapareciam por artes mágicas. Havia as máfias da candonga e as máfias da fiscalização e por vezes, associações das duas máfias. O peixe seco fazia parte obrigatória da ração dos contratados que deviam receber em cada dia uma caneca de fuba e um peixe seco, o salário da fome. A candonga dava resultado porque havia sempre comprador assegurado, o patrão do contratado.



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA V - Mar, Peixe e Gente do Mato

Em Angola, milhões de pessoas que vivem no interior do país, nunca viram o mar. Falo por mim mesmo, eu que nasci e me criei nos matos do Huambo e só conheci o mar aos dezassete anos, quando viajei ao Lobito. Nesse tempo, ao actual porto do Lobito, ainda muita gente lhe chamava Catumbela das Ostras. Lembro-me que cheguei de noite, de boleia, na caixa de uma carrinha aberta, a que hoje dizem «pic-up». O chofer despejou-me num hotel manhoso que havia na restinga, justamente ao lado do jornal «O Lobito», que o Carlos Mimoso Moreira acabava de fundar.

Deram-me quarto no primeiro andar: - «Tem sorte porque é com janela pró mar», disseram-me. Subi as escadas de madeira, ruidosas e desengonçadas, com a maleta da roupa aos tropeções. Atirei-a no chão e, com alvoroço, fui abrir a janela para ver o mar, mas não se enxergava nada. Era uma dessas noites escuras, tão escura que nem se via a Lua. Havia bom cheiro a maresia e ouvia-se o barulho das ondas que chapinhavam perto, na areia.

Sentia-me recontracansado, o corpo a pedir cama, mas não resisti à tentação e desci à praia, alumiando o caminho com uma lanterna de mão, quase inutil, porque as pilhas estavam usadas, mal iluminavam. Tive que avançar titubeante, pisando e tropeçando na areia solta, em direcção à água que não via mas sentia próxima.

De repente, sem avisar-me, chegou uma onda que veio forte e molhou-me. Atribulou-me. O chão tornou-se movediço, a areia escapava-se debaixo dos pés e arrastava-me. Logo pisei num corpo mole e gelatinoso. Apontei a pouca luz da lanterna e vi uma coisa repugnante que me assustou. Saberia depois que era uma medusa vulgar. Mas, nesse momento, ignorante e desesperado ante o desconhecido, fugi para o hotel, o coração batendo, descompassado. Disfarcei como pude, ante o assombrado empregado da recepção, o susto interno e externo, a camisa, a calça e os sapatos encharcados e voltei para o quarto. Pelas dúvidas lavei bem os pés e deitei-me a ouvir o mar. Custou-me a adormecer de tão agitado e recordo que não parava de sonhar com o mar tenebroso e com medusas enormes, horriveis que me perseguiam e me envolviam com seus corpos flácidos.

Vivi nessa noite e em sêco, a minha mais angustiante aventura marinha. Levantei-me cedissimo e assisti na praia, agora mais humana, ao romper do sol, que surgiu, desafiante, detrás dos morros da Quileva e veio mergulhar nas águas da baía, as suas manchas de ouro. Deslumbrado pela dimensão daquela cacimba enorme, nem tive tempo de pensar que o mar verdadeiro era do outro lado da restinga. Para mim, aquele já era o mar total e imenso e apenas via os contornos da baía. Além do impacto inicial, descobri, navegando ali mesmo, bem pertinho da costa, um vapor enorme, o primeiro que meus olhos viam. Imponente, estava tão próximo que podia ler-lhe o nome em letras brancas sobre o casco negro: «Quanza».

Reconheço que aquela caranguejola mal enjorcada me fascinou, porque ultrapassava a minha imaginação. O «Quanza» desse tempo luzia-se como paquete de luxo, três chaminés fumando rolos negros de carvão e uma sirene de voz grave que fazia vibrar os edifícios, «buuuhmmm», «buuuhmmm». Desde esse dia, ondas, medusas e navios grandes como o transatlântico, foram, durante muitos anos, a minha sensação táctil, auditiva e visual do mar.

Na adolescência eu era um devorador de livros de aventuras e fã incontestado de Robinson Crusoé e do seu criado e sócio, o Sexta-Feira. Empolgava-me Emilio Salgari, mas confesso que estava fascinado por Júlio Verne. Foi ele, afinal, quem inspirou as fantasias com que construí e alimentei monstros de todos os tipos e formatos. Para mim o mundo era simples e podia dividi-lo em duas partes: as feras que viviam em terra, onças e leões, pacaças e elefantes, que não me assustavam, porque eram do mato e ambientavam a minha vida de todos os dias. Depois, à parte, existia o outro mundo, o mundo dos monstros, mundo desconhecido e que não era o meu.

A ele pertenciam os dinossáurios, que aliás nunca tinha visto vivos e só apareciam desenhados nalgumas revistas antigas de divulgação. Supunha que podiam viver por aí, nalgum lugar chamado terciário e quaternário. Errei por pouco. Descobri mais tarde que esse sítio era uma ilha e se chamava, afinal, Jurassy Park. Também pertenciam à classe dos monstros todos os habitantes do mar, excepto, sardinha que era sardinha e carapau que era mesmo peixe-carapau e eu reconhecia. Todos os demais seres, grandes ou pequenos, porque ainda estavam a crescer mas que viviam metidos na água, eram monstros estimulados pelas leituras.

Compartia estas idéias o meu amigo e companheiro João Dumbo, amigo de infância, que nunca tinha saido da serra do Quipeio. Quando lhe contei acerca do mar que ele ainda não conhecia, mostrei-lhe a primeira imagem do «octopus», o enorme polvo desenhado e descrito por Juilo Verne. Aí mesmo, Dumbo decidiu que era repugnante, que era uma enorme aranha com feitiço, opinião compartida por muita gente do mato que jamais come mariscos.

Para o João Dumbo a situação piorou a partir do dia em que, passando pelo quintal, observou que o mestre Estevão Cozinheiro aplicava uma sova infernal a um «octopus» de carne negra e muitas patas. Perguntou-lhe o que fazia. Estevão respondeu que estava a amansar um polvo. A nível cozinheiro a coisa era simples, comprava-se polvo sêco, punha-se de molho a noite inteira e depois era preciso bater-lhe com um pau, para amolecer e cozinhar com arroz, um pitéu. João Dumbo não comeu nesse dia e desde então passou a desconfiar das comidas preparadas por mestre Estevão. Nota-se que ficou impressionado e durante muito tempo só falava mesmo desse bicho aranha tão horrivel que, para ser comido, devia ser afogado e espancado, primeiro.



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA VI - Peixe Mulher

João Dumbo é o protótipo da gente do interior que nunca viu o mar e destila preconceitos em relação aos peixes, apesar de que adorava comer o pirão com conduto de carapau seco, assado na braza. Com movimentos calculados retirava do fogo, com as mãos, o peixe quente que partia em lasquinhas, uma de cada vez, para fruir desse sabor entre ácido e salgado que o pirão de milho adocicava.

Também apreciava carapau sêco guizado com tomate, cebola e jindungo, muito molho onde mergulhava bolinhas de pirão que tecia com os dedos lambuzados. E aqui terminava a sua capacidade inicial de comer peixe, lá na serra do Quipeio onde nasceu.

Depois que se mudou para o Huambo, a sua convivência com Mestre Estevão Cozinheiro foi domesticando-o. Já comia corvina fresca, mas detestava as sardinhas, por demasiado espinhosas. Ainda eramos garotos quando o João se animou a comer peixe fresco, que chegava de Benguela no combóio mala, uma vez por semana. Era trazido pelo sr. Abrantes, o nosso peixeiro ambulante, que viajava expressamente a Benguela, para conseguir peixe fresco congelado e assim satisfazer a clientela. O serviço rápido a domicílio tinha lugar quando o combóio ascendente passava junto à casa de cada cliente. O peixeiro, apoiado na barra de ferro que fazia as vezes de porta do vagon onde viajava, tomava balanço e curvado para o exterior, deixava cair a bolsa com o peixe, que rolava no chão até parar. Depois, era só recolhê-la, ao lado da via.

Desde que o combóio chegou ao planalto o sr. Abrantes inventou esta solução pratica para abastecer as famílias ao longo da linha. Na hora de passar o combóio-mala, mal se ouvia, ao longe, o apito, floreado e repetido, avisando da chegada, toda a malta gritava «peixe, peixe... combóio, combóio» e corriamos até nos colocarmos junto à via, numa zona de bastante capim que amortecesse a queda do saco de peixe. Era a festa da semana. Mal o saco partia das mãos do gordo peixeiro, a miudagem celebrava com mais gritos e correrias, a agarrar a encomenda, para entregá-la ao Mestre Estevão que, de longe, supervisava a operação.

Uma vez na posse do bolso, o cozinheiro desatava os nós do cordão, abria o saco e era capaz de reconhecer, à primeira vista e pela cara, de que peixe se tratava. Eufórico com o seu achado, anunciava: «corvina, pescada, cachucho, atum, pungo», enfim, o que fora. Mas, às vezes, em vez de peixe inteiro, vinha peixe cortado às postas e sem cabeça. Neste caso o Estevão não identificava... só dizia... «peixe», deixando a intriga connosco.

Por mera casualidade, curioseando livros, o João Dumbo encontrou no gordo dicionário ilustrado, a figura de uma kianda ou sereia, cujos longos cabelos meio lhe cobriam os seios. Estava sentada sobre pedras e via-se em primeiro plano o seu rabo de peixe. Perplexo, veio perguntar-me se aquilo era mesmo de verdade. Quando lhe respondi que sim, que era mesmo de verdade e que existiam as sereias, declarou logo ali, solenemente, que daí em diante, nunca mais ele voltaria a comer peixe sem ver-lhe a cabeça. – «Afinal – dizia no seu português atrapalhado – tem os pessoa que é os peixe? Não, pôssa. Eu não como mais os peixe que afinal é a mulher». Intrigado e supersticioso, adiantava: - «...assim, se eu não vejo mesmo os cabeça dele, não, eu não como. Sinão, como é que sei se é os peixe ou as pessoa?».

Daí em diante começou a investigar acerca de peixes. Aos poucos foi reunindo dados e ouviu, atentamente, as estórias do velho Kateia, que trabalhara como contratado nas pescarias da Baía Farta e também no Bom Jesus. Foi o Kateia que lhe confirmou a existência do peixe-mulher. Mais. Até lhe garantiu que tinha visto no rio Dande, um peixe mulher. E não era fantasia. Nalguns rios de Angola existe ou existia o manatim, um tipo de «peixe-boi» africano ou mulher-peixe.

Na realidade o manatim ou vaca-marinha é um mamífero aquático que vive nos rios africanos desde o Senegal até ao sul de Angola. Talvez esteja extinto, mas antes aparecia com certa frequência nos rios Longa e Cuanza, que delimitam o Parque Nacional da Quissama, perto de Luanda. Os primeiros exemplares desta família de mamíferos, denunciados pelos relatos de marinheiros, foram avistados nas costas da Venezuela, Guianas e N.E. do Brasil onde também é conhecido como peixe-boi, vaca marinha ou... mulher-peixe. Nalgumas regiões é conhecido pelo nome de «gugong».

O manatim é uma criatura nocturna, cuja cabeça lembra a foca. Possue focinho notoriamente grande e boca notoriamente pequena. Tem os membros anteriores transformados em nadadeiras, carece de membros posteriores e tem cauda horizontal em forma de remo não fendido no meio, identica à cauda dos golfinhos. Família dos manatídeos, pertence à classe dos sirenídeos. A fêmea de peixe-boi nada de costas, segurando, carinhosamente, a sua cria, junto ao peito, com as barbatanas e emitindo gritos de lamento. Admite-se que seria este grito o que fascinou marinheiros que o identificaram como o «canto da sereia». E é bem possível que tenha sido a postura humana destes animais o que deu origem ao mito das sereias.

Em 1992 uma equipa de pesquizadores da União Internacional da Conservação da Natureza disse, no seu relatório, que o manatim africano já não existia nos rios de Angola. Contudo, o naturista sul africano Roger Ballard-Tremeer, que viveu algum tempo em Angola, recusou-se a acreditar nisso e reuniu, nos últimos anos, provas fisicas para demonstar que o manatim africano está bem vivo nos sistemas fluviais do Cuanza e do Bengo. A Fundação do Parque da Quissama, empenhada em preservar as espécies, tem como programa o repovoamento da bela reserva que já existiu ao sul de Luanda. Por isso sobrevive a esperança de que o mítico canto da sereia se volte a ouvir em certas noites misteriosas de África.

Fazedora de mitos, a sereia ainda exerce grande fascínio e temor. Extinto ou não, o manatim sobrevive na fantasia do meu amigo João Dumbo, como o peixe-mulher ou mulher-peixe. Por isso, nem agora, depois de velho, está abalada a sua decisão de nunca comer peixe sem primeiro lhe espreitar a cara... - «Sinão, como é que eu sei se é os peixe ou os pessoa?».



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA VII - Peixe do Capim

Os preconceitos alimentares de quem vive no mato longe dos grandes rios ou lagos, marcam a diferença em relação à atitude das populações ribeirinhas que pescam e comem peixe. A pesca em Angola, tal como hoje se pratica, regista muita influencia dos métodos introduzidos pelos portugueses, mas nem sempre foi assim. De qualquer modo, não é da moderna pesca artesanal nem da indústria da pesca que vou ocupar-me, porque a minha idéia é recordar aos mais jovens, antigos métodos da pesca tradicional e velhas estórias de pescarias em épocas passadas.

O litoral, a Sul, era quase desabitado e a pesca no mar fazia-se especialmente no norte do país, onde os habitantes construiam paliçadas nas encostas da praia, utilizando paus de bordão e folhas de palmeira, para beneficiarem do movimento de vai-vem das marés. Na maré vazante, os peixes que penetram no cerco, devido à subida das águas, não podem escapar-se, retidos na precária rede e podem ser agarrados à mão.

Sistema similar ainda se utiliza hoje nos grandes rios do país, especialmente no Cuanza, Cuango, Cubango, Cassai, etc. Este tipo de actividade pesqueira é praticada normalmente pelos homens. São eles que constroem as represas com paus espetados no leito do rio e contra os quais colocam as armadilhas, cestas cónicas de vime, que aprisionam os peixes que circulam ao sabor da corrente. Diferente é a pesca lacustre, estacional e praticada essencialmente por mulheres, que fazem da pesca da «tukeya» uma festa. A «tukeya» é um peixe minúsculo, peixe de chana mais pequeno do que os chamados «joaquinzinhos» e que se encontra na região da Cameia, no leste do país, onde, com as chuvas, se formam grandes lagos temporários e de pouca profundidade.

As mulheres juntam-se em ranchos e metem-se nas águas das lagoas, praticando grandes pescarias colectivas, enquanto cantam e dançam. Trata-se de uma actividade secular, embora as referências escritas sobre esta prática tradicional datem apenas da primeira metade do século XX. As primeiras anotações escritas sobre a «tukeia» pertencem a Don António d’Almeida, com apóstrofe, homem de letras e linhagem, que foi goverrnador do Bié e Luchazes, vasto território que abrangia as superfícies das actuais províncias do Bié, Moxico e Cuando-Cubango.

Amo e senhor desse domínio imenso e ignoto, D. António quiz conhecê-lo palmo a palmo. Investigador, meteu-se pelo mato e pelas anharas que calcurreou. A pé, em tipoia, a boi cavalo, em carro boer, automóvel ou combóio, que já avançava pelas chanas do leste, Don António viajou muito e conheceu bem a região que devia administrar mas não administrou. Quando somou suficiente conhecimento sobre o território que ia governar, já se tinha esgotado o tempo da sua comissão como governador. Desse tempo e dessas viagens ficaram os seus escritos e entre eles anotações da sua passagem pelas chanas da Cameia, lugar de areais e vegetação de meia altura. Nesses relatos refere-se, reticente, ao tema fascinante da «tukeya». Don António escrevia com deleite e era minucioso na descripção de tudo o que observava, mas nem sempre investigava a fundo.

Seria meia manhã quando notou, ao longe, quase sobre a linha do horizonte, a existência de um estranho manto de prata que reflectia a luz do Sol. Era um manto que cobria as bissapas e o capim, numa vasta área. Intrigado com o fenómeno, foi perguntando aos sipaios e logo aos pisteiros, o que era aquilo, luminoso, lá ao longe. Foi aí que o governador ouviu falar pela primeira vez da «tukeya», o peixe da anhara. À medida que a caravana avançava, o manto branco desdobrava-se mais nitidamente no que pareciam peixinhos prateados, incrivelmente empoleirados nas bissapas e no capim.

O cheiro que exalavam era nauseabundo e o assombro de Don António, indescriptivel. Até onde a vista alcançava não existia rasto de água, todo o chão era de areia ou lama seca e gretada, aqui e ali plantado de arbustos entremeados no capim com mais de um metro de altura. O insólito desta paisagem é que os peixes eram peixes de verdade e estavam empoleirados na vegetação. De entre os acompanhantes, os poucos que conheciam ou eram da região, não compreendiam o assombro dos demais e com naturalidade, respondiam, simplesmente, que os peixinhos eram «tukeia». Havia os que permaneciam em silêncio ou conversavam entre si, mas a maioria, sobretudo os carregadores, que chegavam ao lugar pela primeira vez, manifestavam-se curiosos, também, perante a novidade.

Não havendo explicação lógica e à falta de outros elementos, deduziu D. António que estava perante uma espécie desconhecida de peixes voadores, que se haviam reunido, inexplicavelmente, em tão estranho lugar. E assim nasceu a lenda dos peixes voadores das anharas ou dos peixes do capim.

(Leia a seguir «Tukeya o Peixe Voador»).



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA VIII - Tukeia, o Peixe Voador

Até onde sei, a lenda dos peixes voadores que vestem de prata as anharas do Moxico, foi criada por D. António d’Almeida, o governador-poeta e descobridor de um vasto campo com milhões e milhões de peixinhos empoleirados nas árvores. Na verdade, as árvores não eram árvores, senão arbustos ou, por outro dizer, bissapas comuns e capim alto, a normal vegetação das chanas do Leste de Angola. Isso sim, o governador não encontrou maneira de explicar nem a sua misteriosa origem, nem o porquê daquele lugar de reunião e de tão insólito e fabuloso amontoamento.

Se não existe o termo, invento agora mesmo: legendificação. A legendificação da «tukeya» deve-se, talvez, a que sòmente dois homens da caravana do governador conheciam e podiam comentar acerca do mar, do seu aspecto e imensidão, da quantidade de peixe que havia nessas águas profundas, tão salgadas que não se podiam beber. O mar era, para eles, um rio infinito e assustador, cheio de peixes enormes, enfeitiçados, porque nunca tinham sede, jamais bebiam água doce. Tinham visto tudo isso com os próprios olhos mas, estavam convencidos de que o feitiço daquele mato era mais poderoso, porque criava peixes nas bissapas e peixes que tão pouco bebiam água.

Para facilitar a legendificação do assunto, outros integrantes da caravana manifestaram conhecer a «tukeya», mas registavam a sua existência apenas ao nivel de estranha comida dos povos da chana. Contavam-se pelos dedos os que já haviam provado o manjar. Coincidiam em que, apesar do seu cheiro nauseabundo e penetrante, oferecia um prato muito saboroso. Àparte isto e como ninguém tinha pescado, apanhado, ou visto pescar a «tukeya», não havia testemunhas, quem soubesse alguma coisa àcerca da origem dos peixes do areal. Nestas circunstancias, é fácil imaginar a conversa que se estabeleceu entre Don António e os acompanhantes e estes entre si, na sua língua de origem, que traduzo, para facilitar a vida aos leitores. A cena e o diálogo que se seguem são imaginários e não foram relatados pelo governador.

Don António mandou dois escravos que fossem buscar algumas daquelas coisas prateadas que se viam à distância. Entretanto, abandonou a tipóia onde se fazia transportar, estirou as pernas, ergueu o comprido pescoço sobre a vegetação. Quando, por fim, pôde tomar nas mãos os peixinhos que lhe alcançavam, viu que estavam secos, mumificados pelo sol. Procurou entender o fenómeno e interpretar o confuso palavreado dos vassalos. Tarefa impossível mas que, mesmo assim, empreendeu.

Todos opinavam mas ninguém explicava a razão pela qual havia peixinhos pousados nas folhas e a discussão não terminava. A caravana aproximou-se da misteriosa esteira prateada que o sol retocava de reflexos azuis. -«O aroma é pestilento. Só pode andar-se por aqui com o nariz tapado» - anotou D. António no canhenho de viagem. Rodeado de peixinhos e opiniões por todo o lado, queria entender o inintendivel e o diálogo generalizado não lhe entregava informação compreensivel ou válida. O exame mais atento dos peixinhos tão pouco. «Que são peixes, são. Está fora de dúvida. Os mais compridos têm entre uma e duas polegadas, são barrigudos, prateados, de olhos minusculos e barbatanas talvez mais largas e compridas do que o normal para peixes das suas dimensões. Parecem asas».

Desta anotação à teoria dos peixes voadores foi um passo. Para melhor conclusão faltava, apenas, encontrar o rio ou lago de onde partiam os cardumes...

– «...Cardumes ou enxames ?», interrogava-se o governador. «Nadam ou voam? Que distância ? A que altura? Porque razão aterram ou caem todos juntos? Acidente ou suicidio colectivo? Sobre os arbustos vêm-se nuvens de peixinhos prateados, ressequidos, tão extremadamente delgados que, em vida, são tão leves que podem deslocar-se pela planície, voando como enxames de gafanhotos, até cairem exaustos sobre as plantas».

Antes de continuar viagem, D. António investigou um pouco mais na região, mas sem descobrir nas proximidades e nem sequer longe dali, nenhum rio, lago ou qualquer lençol de água à vista, nem quem lhe explicasse o fenómeno. Nunca regressou ao lugar e morreu anos mais tarde sem desvendar o mistério ou os feitiços da «tukeia». Contudo a sua fantasia não andava longe da verdade. A «tukeia» brota do chão como as nuvens de gafanhotos.

Este peixe minúsculo nasce na anhara, nos lagos de curta vida que a água das chuvas forma, todos os anos. Nas gretas de lama seca, no fundo, ficaram depositados os ovos que produzem miríades de peixinhos de crescimento alucinantemente rápido. Em dois meses cumpre-se o ciclo vital e começa a desova. A forte evaporação devida à secura do clima e o baixo nivel das águas obrigam à concentração dos cardumes, facilitando a tarefa da recolha. As mulheres da região chegam em grupos, empunhando cestos com aspecto de raquetas enormes. Entram na água juntas, formando parede e avançam umas ao lado das outras, repetindo canções e técnicas seculares. Agitam os cestos com movimentos de baixo para cima e atiram os peixes ao ar, para que caiam sobre as plantas. Dias mais tarde, voltam à anhara, desta vez com kindas e juntam a «tukeya», como quem colhe frutos do alto das bissapas.

O cheiro fétido deve-se ao processo de semi-putrefacção que ocorre durante a secagem, mas os guizados de «tukeia» são famosos entre ganguelas e kiokos e são realmente saborosos. E sem cheiro. Custou-me a provar, por preconceito, depois aficionei-me e confirmo que são uma delicia. E sem cheiro.

A «tukeia» exporta-se em pequenas malas de mateba, de rede apertada à dimensão do conteúdo e a sua presença nos transportes ou comércios rurais é denunciada à distância pelo cheiro. Cheiro a quê?

– «A peixe voador, Alteza, a «tukeia», Senhor Don António. A «tukeia»!



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA IX - A Palanca Preta Gigante

Ainda não existe ou não se divulgou nenhuma lenda acerca da Palanca-Negra ou Palanca-Real. Penso que não vai tardar muito tempo para que se confirme que a sua existência é apenas legendária, porque este belo animal está desaparecendo da face da Terra, abatido pelo gatilho dos caçadores, ou vitima das traiçoeiras minas anti-pessoais que abundam no terreno. Na remota hipótese de que ainda seja possivel encontrar alguns exemplares, está claro que a palanca-negra tem os dias contados.

Desaparece perseguida porque, simplesmente, é bela. Só é, só era possivel encontrá-la em Angola, numa região determinada, seu habitat único e exclusivo. Para descobrir rastos da sua existência, ainda que por milagre, é absolutamente necessário viajar e visitar a zona onde vive. Com essa finalidade, depois da apaixonante aventura conjunta para descobrirmos a «tukeia», o misterioso peixe voador das anharas do Leste de Angola, proponho-te que deixemos o Moxico, cruzemos uma faixa do territorio do Bié e passemos à vizinha província de Malanje.

Previno que o caminho, por terra, é tormentoso. Por isso, a para facilitar a tua viagem, imaginando que tens à mão um mapa, aconselho-te a saltar directamente para Luanda, a capital do país. Uma vez aí, acompanha a linha da costa rumo ao sul e trata de localizar a foz do rio Cuanza ou Kwanza, a cerca de cinquenta quilómetros de distância. A tarefa é fácil porque o curso de água está bem assinalado, é o mais importante rio nacional. Apoia agora o dedo indicador sobre o lugar que marca a foz e procura acompanhar, em direcção à nascente, a linha que reproduz o curso do rio, estabelecendo o primeiro contacto com nomes de lugares históricos e turísticos de relêvo.

Atravessas a antiga vila colonial do Dondo, pelo meio e pouco depois chegas à barragem hidro-eléctrica de Cambambe, a maior do país. Continuando a subir o acidentado curso médio do Cuanza, o teu dedo investigador vai aproximar-se de Pungo Andongo, nome gentílico do lugar das pedras negras. São pedregulhos enormes e compactos, que irrompem, abrupta e assombrosamente, do chão. A sua altura e dimensão corresponde a edifícios de muitos andares, que se erguem, inexplicavelmente, como a mole de uma cidade moderna, no meio de uma paisagem plana, absolutamente plana. O espectáculo é único, mas não te detenhas aqui, deixa essa visita para um próximo passeio.

Continua a viagem, continua a mover o teu dedo ao longo do rio. Estás subindo e avançando contra a corrente selvagem, impetuosa. Faz um esforço e não pares a contemplar o magnifico panorama das quedas de Cangandala, não tão famosas como as quedas de Calandula, um pouco mais ao norte, sobre o rio Lucala, conhecidas, internacionalmente, como “Quedas do Duque de Bragança”, o seu toponímico no tempo colonial.. Aqui em Cangandala abrem-se as portas para o parque nacional do mesmo nome, onde começa o reino da palamca preta.

Um pouco mais adiante, à tua direita, mas afastada do rio, porque este muda de direcção, localizas a cidade de Malanje. Depois dum pronunciado curvão, o Cuanza desvia-se para sudeste em linha recta, cerca de uma centena de quilómetros representados por dois ou três centimetros sobre o teu mapa, rumo à nascente. Os teus olhos descobrem, desenhado, o curso de outro rio grande, que aparece do lado direito da forquilha. É o Luando que desagua no Cuanza. O trapézio de terreno formado pelos dois rios é uma planicie imensa, interminavel que conforma a Reserva Natural e Integral do Luando, o paraíso da Palanca Preta. É uma zona de muito capim e árvores de pequeno porte, vegetação típica da anhara, mas neste caso com certas características que explicam a sua fauna especial.

Sua magestade a Palanca-Real domina a região, explicando com o seu orgulho a razão pela qual se transformou em “ex-libris” de Angola, exaustivamente citada em textos e também representada graficamente. O desenho estilizado do perfil da sua cabeça com cornos longos e paralelos e tão recurvados que conformam um circulo perfeito, foi criado pelo pintor Neves e Sousa, o logotipo que identifica os aviões da TAAG, a companhia área nacional. Desde então e desde o mais alto da cauda de cada aparelho, a palanca-negra contempla os céus por onde navega. Chamam-lhe a “palanca-voadora”. Também os jogadores da selecção nacional de futebol são conhecidos como “palancas negras”. Ás vezes voam. Outras vezes, têm actuações bem negras..

Apesar da sua estatura de cavalo e da ameaça dos seus chifres compridos e ponteagudos, não é agressivo, excepto se está ferido. Neste caso torna-se bastante perigoso. A palanca-preta foi descoberta, melhor dizendo, foi anotada nos livros, pela primeira vez, em 1909, pelo cidadão belga Variani, que descreveu e classificou como herbívero gigante, dando-lhe a designação científica de «hippotragus níger variani». Já nessa época Variani anotou que havia reduzidas manadas de poucos individuos. Desde então, atraiçoado pela sua beleza e pelo facto de só existir em Angola, transformou-se em troféu apetecido pelos caçadores, sofrendo implacaveis perseguições.

Durante a época colonial estava protegido por rigorosas leis de protecção, mas, mesmo assim, as manadas foram diminuindo, paulatinamente. As guerras que envileceram o pais durante anos e anos, completaram a tarefa destruidora. Falar hoje da palanca-gigante e até novas em contrário, é falar apenas da saudade de um tempo perdido. Não existem exemplares localizados, nem condições de paz para uma busca cuidadosa. Contudo, não falar-te da palanca-negra, seria aceitar como consumada, a sua extinção pura e simples, uma certeza que não quero ter. Trouxe-te até aqui a este lugar desolado para que sintas, como eu, a terrivel sensação de vazio que me persegue. Talvez te animes a apoiar as iniciativas que venham a ser tomadas para reunir e proteger os exemplares vivos que ainda existam, se existem. Não creio em milagres, mas tenho a secreta esperança de que ainda seja possivel salvar a palanca-real.

As grandes cheias também conspiram contra a sua existência. Inundando a planície, as águas obrigam os animais a concentrarem-se nos lugares elevados, onde são presa fácil dos depredadores, entre eles o pior de todos, o homem que vê, admira e mata só por matar. Os machos são de cor negra, têm a dimensão de um cavalo e os chifres negros, que afiam, constantemente, nos troncos das árvores, medem cerca de um metro e meio de comprimento. Os quartos trazeiros elevados, permitem-lhes dominar o mato com altivez, enquanto protegem as femeas de pêlo castanho dourado e brilhante. Neste cortejo real se pode basear uma lenda fantastica.

Este é o paraiso perdido da palanca negra que foi rainha e senhora destes prados dos parques de Cangandala e Luando. Os homens transformaram este paraiso num inferno à sua medida. Não vale a pena continuar esta viagem sem final feliz. Vai escurecendo. Juntemos um pouco de lenha e preparemos uma fogueira. Proponho que passemos a noite aqui. O homem destruiu a fauna e flora deste lugar, mas, por sorte, ainda nos deixou-nos o céu e as estrêlas. Podemos estender-nos no chão, sobre o capim seco a olhar as estrêlas. Acredita que é uma bela proposta....



Crónicas do Kandimba - Por Sebastião Coelho

CRÓNICA X - Conversa à Luz das Estrelas

Deitar-se sobre o capim seco a olhar as estrêlas, é previlégio das gentes do campo. Nas cidades não existe esta possibilidade. Falta lugar cómodo e sobram as luzes que tiram nitidez ao firmamento. E a culpa é do homem que maltrata o chão onde pisa e tão pouco tem cuidado com o céu para onde olha. Devoro todas as notícias sobre a conquista do espaço e temo que algum até as estrêlas se vão sujar ou vão desaparecer.

Está em execução o grande projecto de engenharia espacial que contempla a construção de um satélite artificial de grandes proporções, formado por módulos unidos entre si. Quando estiver terminada a Estação Espacial Internacional – ISS, teremos no espaço, sobre as nossas cabeças, uma pequena Lua artificial. Milhões de pessoas nunca ouviram falar disso e milhões não ligam importância ao assunto. Também há milhões que não têm, sequer, tempo para olhar para o Céu a observar as estrêlas. Que pena. O espectáculo é belo e grátis.

Milhões de estrêlas desfilam pelo firmamento, comandadas pelo Sol e pela Lua. Sei disto há muito tempo, desde a época em que o meu finado amigo Pedro Chimuko me explicou que a Lua é mais importante do que o Sol. Soba do Capoco, sanzala grande e antiga que faz parte da minha terra do Huambo, no interior de Angola, Pedro Chimuko era um filósofo amante da lógica e de raciocínios profundos: «A Lua – dizia – a Lua é muito mais importante do que o Sol, porque a Lua aparece de noite. Aparece quando faz mais falta, porque não há luz e as estrêlas não chegam para alumiar o caminho».

Nesse tempo, no tempo destas conversas tranquilas de falar só por falar, tinhamos tempo para sentar-nos junto à fogueira do velho Sachitota Sacalumbo, o guarda-noturno da loja do siô Gomes da Xipipa. O guarda-noturno era uma instituição de segurança, garantida pelo porrinho, pouco sono, um kisanje e muita coragem. Sacalumbo era irmão do soba e era amigo do meu amigo o Senhor Neves, o Neves e Sousa pintor, que o pintou em 1960, estampando a sua figura num belo quadro sobre tela, a que chamou «Quissange – Saudade Negra», retomando o título de uma poesia de Tomaz Vieira da Cruz:

.................
Sentados sobre um tronco ou numa pedra ou até no chão, petiscavamos, com bolinhas de pirão enroscadas nos dedos, lascas de carapau seco, chamuscado nas brazas. Nesse tempo, as noites escuras eram, seguramente, mais escuras que hoje. Também as estrêlas eram mais, muito mais numerosas do que agora e brilhavam com maior fulgor, porque o ar era transparente e puro, sem reflexos de contaminação.

De vez em quando, quando a conversa impunha uma pausa lógica e apetecida, o velho Sachitota agarrava no kisanje para dedilhar temas que improvisava, cantando em surdina, qualquer lenga-lenga que o arrastava para longe, talvez para as estrêlas. E todos nós, os que compartiamos esses serões de natureza e tranquilidade, seguiamos a melopeia e com ela, o vôo errante de alguma fagulha mais duradoira que se escorria da fogueira. Os olhos atrás dela terminavam, também, fixando o céu, a festejar as estrêlas, vagueando pelo espaço como elas, cada um voando, mergulhando em secretos pensamentos.

Quando, surpreendente e veloz, uma estrela fugaz riscava a noite, calavam-se as vozes do kisanje e do tocador. Despertavamo-nos da magia da música e contemplavamos no céu esse rasto de luz, dominados pelo deslumbramento do espectáculo celeste. Era apenas um instante, o suficiente para devolver-nos ao mundo da nossa realidade simples e quotidiana. Unanimemente, reconheciamos que já era tempo de dormir. Era tempo de despedir... – «fica bem.... estamos juntos...» e partiamos, levando nos olhos pedacinhos de céu, para que se recostassem connosco, acompanhando-nos em sonhos inocentes e puros.

Sòzinho, responsavel pela sua missão de vigília, apostado em não dormir, o velho Sacalumbo acendia o cachimbo e com ele apertado nos lábios e nos dentes, retomava o kisanje e dedilhava a sua melopeia, infindavel e seca, como o ruido seco das teclas de ferro do seu instrumento.

Cada um regressava a casa para dormir. A imagem do céu ajudava a preparar esse repouso dos homens. Não era como agora em que o céu já não é o céu de Deus e dos Anjinhos, do Sol, da Lua e das Estrêlas, conspurcado como está de poeiras, fumos, lixos e satélites espias. Tenho a certeza de que se eu pudesse voltar a esse tempo, para sentar-me junto à fogueira e contar aos meus amigos Chimuko e Sacalumbo, àcerca destas mudanças ditadas pela civilização, não me acreditariam. Seria uma conversa impossível. Chimuko ficaria calado de raiva e Sacalumbo já não teria matéria de inspiração para cantar, preocupados ambos com a vigilância dos satélites espiões, essa vigilância invisível mas inquietante, oculta durante o dia pelo Sol radioso, disfarçada na noite pelas estrêlas semi apagadas.

Sei que não teria forma de convencê-los de que pés humanos haviam pisado alguma vez a Lua, visivelmente mais pequena do que os próprios pés humanos e sem poder mostrar-lhes, a olho nu, as pegadas que teriam deixado aí, arriscados viajantes de estranhas máquinas voadoras. Pior ainda seria, de poder voltar a esse tempo e a esse lugar, sentar-me junto à fogueira e tentar explicar-lhes que existem homens corajosos, astronautas que caminham no espaço e que instalam entre a Terra e a Lua, uma estação orbital, gigantesca, onde podem viver os cientistas, pessoas, enfim.

A pergunta deles seria tão lógica como a da importância da Lua que ilumina os caminhos nas noites escuras... - «Como é que caminham no ar, em cima de quê? Em cima do ar ou em cima das nuvens?» Seria ofensivo para eles e vergonhoso para mim, contar-lhes tanta mentira, tantas barbaridades sobre o que faz o homem actual, como, por exemplo, isso de caminhar no espaço e encher o Céu de lixo e de satelites, pequenas luas que nos espiam, que nos vêm a toda a hora e que contam tudo o que vêm....»

Falar-lhes da assombrosa tecnologia deste tempo actual, não seria apenas acentuar as diferenças entre dois mundos. Essa verdade contada hoje à roda de uma fogueira no seio de África, seria tão inverosimil como há meio século atrás, uma inaceitavel conversa à luz das estrêlas. Porque, para todos, seria uma criminosa interferência no milenário diálogo entre os Sábios e os Astros e seria, sobretudo, substimar o real e visivel poder do Sol e da Lua sobre o Universo. Seria... seria uma falta de respeito. Seria menosprezar a sabedoria dos Mais Velhos que ainda hoje conversam à luz das estrêlas...





Re-editado neste site em 4 de Julho de 2004 por António Eduardo Monteiro Horta,
respeitando o texto da edição no antigo servidor da EBONet

Direitos autorais de Sebastião Coelho ©, jornalista angolano


Nova Lisboa - Huambo