Flagrantes de


António Manuel Lopes Videira

Este nosso conterrâneo e amigo, conta-nos situações vividas durante a sua permanência em países africanos, trabalhando como Engº Civil e que, de uma forma simpática, quis partilhar connosco. Estes relatos são extraídos de missivas enviadas para a família, vivendo Portugal, durante as suas longas ausências naquelas latitudes meridionais.



Relatos de Angola
Relatos de Moçambique
Relatos de Outros Tempos





1. 18-Nov-2000 Luanda- um dia normal!

Hoje como é Sábado, combinei com os meus colegas ir ter com eles à praia depois das 11 horas, pois assim ainda teria tempo para ir fazer compras de alguns géneros que faltavam lá em casa.

Saí de casa relativamente cedo e fui em direcção a Luanda pela estrada da Samba pois a outra alternativa, pela estrada do aeroporto, está normalmente mais congestionada. Contudo, à passagem pela zona da casa mortuária, nas traseiras do hospital Maria Pia, havia um enorme engarrafamento, verificando-se sobretudo uma grande aglomeração de autocarros e carrinhas de transporte de passageiros. Mesmo assim o trânsito ia passando, pelo que lá fui comprar o que precisava e depois regressei a casa, embora pelo outro percurso que afinal até nem estava nada congestionado.

Deixei as compras e vesti o calção de banho para ir então à praia ter com os colegas. Já eram 11 e meia pelo que saí apressado e, tentando evitar engarrafamentos, tomei novamente o caminho do aeroporto. Assim, como não havia congestionamento, rapidamente cheguei ao cruzamento da Maianga, onde normalmente o trânsito é mais complicado.

Mas hoje a situação parecia algo estranha. A poucas dezenas de metros do cruzamento estava tudo parado e nem os irrequietos taxistas ou candongueiros faziam as habituais manobras para passarem à frente. Parei também, e esperei. Não foi muito tempo, menos de cinco minutos depois começaram a ouvir-se sirenes. Nos passeios as pessoas abeiraram-se da estrada, e lá vinham as motas da polícia, as que normalmente antecedem as viaturas oficiais da presidência ou do governo.

Mas também isto era estranho pois desta vez as motas não vinham em grande velocidade, vinham muito mais devagar do que é habitual. A seguir, e também lentamente, vinham várias carrinhas de caixa aberta com os conhecidos “ninjas” fortemente armados. Então depois, um camião-tractor com uma plataforma carregada com ... caixões! A maior parte deles eram muito pequenos e todos tinham uma etiqueta colada na parte superior. Tentei contar para ficar com uma ideia da “carga” transportada, e consegui verificar que eram 3 filas com cerca de 10 caixões cada ...

Mas, logo a seguir, vinha outro camião-tractor com outra plataforma e igual carregamento...

E finalmente, um enorme cortejo com dezenas de autocarros, carrinhas, carros e camiões carregados de pessoas, maioritariamente vestidas de negro, umas chorando compulsivamente, outras parecendo entoar cânticos religiosos. Entretanto na rua as pessoas já tinham começado a andar normalmente e as viaturas a circular. E eu parado, estupefacto, tive que arrancar de repente pois começavam a apitar atrás de mim ...

Cheguei à praia já passava do meio dia e meio. Tive de dar várias voltas para estacionar, tal era a enchente. Afinal era Sábado e estava bastante calor.

À noite ouvi as notícias, “foram hoje a enterrar os restos mortais dos 53 passageiros do Antonov que se despenhou na Quarta-feira passada nos arredores de Luanda pouco depois de levantar vôo”...

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2. Luanda, 20-Nov-2000

Hoje tive uma reunião na Delegação da Comissão Europeia e no acesso às instalações o recepcionista/segurança, um homem mestiço, bem constituído e aparentando cerca de 30 anos, pediu-me um documento de identificação.

Quando a reunião terminou, cerca do meio dia, à saída o referido segurança ia a entregar-me o documento que eu lhe tinha deixado,mas pediu para falar comigo à parte:

- Senhor desculpe, este é o seu nome António Manuel Lopes, perguntou apontando para o meu documento.

- Sim é esse, respondi.

- E o senhor, noutros tempos, alguma vez viveu em Angola? Insistiu ele.

- Sim, mas foi há muito tempo.

- Senhor desculpe, está a ver? O meu nome também é António Manuel Lopes, insistiu mostrando o seu B.I.

- Está bem “xará” dá cá um bacalhau! Estendi-lhe a mão.

- Não é isso senhor, respondeu ele apertando-me a mão. É que o meu pai também se chamava António Manuel Lopes e esteve no Huambo, antes Nova Lisboa, entre 1972 e 1975, no Exército Português. O senhor... não esteve nesta altura em Nova Lisboa?

- Não meu, respondi tentando sorrir. Eu vivi alguns anos em Angola mas foi no Lobito. Além disso o meu nome é António Manuel Lopes Videira, porque aí não está o apelido...

De facto o documento que eu lhe tinha deixado era a minha carta de condução, e na identificação está assim:

    1. Apelido: Videira

    2. Nome: António Manuel Lopes

    3. Data de nascimento...

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Relatos de Moçambique


Maputo, 25-Out-00

Parece que hoje vou ter um bocadinho para escrever, embora ontem me tenha deitado bastante mais tarde. Estive a ver o debate dos 2 candidatos do Benfica e como há diferença de uma hora, quando acabou, aqui já eram quase 3 da manhã. Normalmente quando me deito ainda está a dar o telejornal pois é sempre por volta das 10 horas. No entanto às 5 e meia já estou acordado, os dias aqui começam muito cedo. Tenho até aproveitado para fazer umas corridinhas matinais, entre as 6 e as 6 e meia da manhã, como fazia em Cabo Verde. Mas tem-me custado um bocado pois estou em baixo de forma, já há bastante tempo que não fazia exercício com regularidade. Mas o que interessa é não desistir.

Ontem aqui já fez bastante calor, se estiver assim talvez no domingo já dê para ir até à praia. Existem praias muito bonitas mas tem que se andar alguns quilómetros pois é na periferia e como ainda ando com uma viatura alugada tenho evitado os grandes percursos. No entanto na semana passada estive quase na fronteira com a Swazilândia, é que tenho que me habituar a conduzir “à inglesa”, quer na cidade quer em estrada. Às vezes, sobretudo nos cruzamentos, lá vem a tendência de entrar pela direita... mas com calma tudo se tem resolvido. Temos que ter sempre capacidade para aprender, e humildade para reconhecer que não sabemos tudo. Agora que não é fácil, não é não. Mas se outros conseguiram...

Uma das vantagens aqui, é podermos circular facilmente por todo o território. Aparentemente as dificuldades resultam apenas dos estragos nas estradas causados pelas cheias. Mas a grande vantagem deste país chama-se África do Sul. Até já existe uma auto estrada que a partir de Maputo nos põe na fronteira em cerca de uma hora. E então ali é quase como se estivessemos na Europa, nalgumas coisas até é bem melhor, o clima por exemplo. De resto hipermercados, telemóveis, caixas multibanco, hotéis, zonas turísticas, enfim tudo à imagem da Europa, mas adaptado à região. As reservas de animais por exemplo são indescritíveis, só mesmo quem já viveu algum tempo em África poderá imaginar, embora há 30 anos atrás fosse impossível pensar que se iriam constituir autênticos “países” para os animais, tal é o tamanho destes parques e o cuidado que se tem com a bicharada. É como se cada um tivesse o seu BI pois parece que estão todos registados e são controlados, pelo menos as espécies mais raras porque não acredito que tenham registado todas as cobras, lagartos, crocodilos, sei lá... e então nós para entrarmos no país da bicharada temos de obter um “visto” e passar uma “fronteira”... sim porque lá dentro depois as regras são diferentes...


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Maputo, 03-Nov-00

Afinal enganei-me da última vez que escrevi. O tempo no final da semana passada piorou e ainda não deu para ir à praia. Na Sexta-feira e no Sábado choveu mesmo bastante e na Segunda-feira tive que vir para o escritório com um casaco de malha tipo “kimbriquito” que me emprestaram... a temperatura andava à volta dos 18 – 20 graus, o que para aqui parece ser uma temperatura de Inverno e que normalmente só acontece em Julho e Agosto. Bem, mas embora ontem à noite tenha chovido, hoje já amanheceu a parecer a Guiné, a cheirar a terra molhada e a fazer algum calor. Às 6 da manhã quando fui dar a minha corridinha até estava abafado, e na rádio a previsão era para uma temperatura máxima da ordem dos 30 gruas o que já é bom - vamos ver se no Domingo já vai dar para o mergulhão... senão parece que terá que ficar para a próxima, pois para a semana já entramos na segunda semana de Novembro e deverá ser nessa semana que regresso. Talvez na Segunda-feira já tenha a confirmação. Vou ter pena pois este país é muito diferente dos outros por onde tenho andado, tem muitos motivos de interesse, circula-se livremente, as pessoas são muito respeitadoras e a vida não é muito cara.

Tenho comido aqui bons pratos de caril, principalmente de peixe e... de camarão. A influência oriental, sobretudo indiana, está muito presente, principalmente na alimentação. Uma das grandes diferenças em relação a Angola por exemplo, é que aqui ainda há muitos e bons restaurantes e até nem são muito caros. Mesmo até quando se come carne é muito mais gostosa do que aí, os bifes por exemplo são muito tenros e não têm aquele sabor a medicamentos, típico da Europa... a manteiga também é muito gostosa, faz lembrar em Angola quando se ía para aquelas fazendas do interior, nós dizíamos “o mato”, a manteiga era uma maravilha parecia até que ainda sabia a leite, aqui é a mesma coisa. Ao pequeno almoço por exemplo há sempre muita fruta, sumos, manteiga, queijo e... ovos estrelados! Eu é que tenho evitado para não “alargar”. É por isso que aqui o turismo tem algum significado, com tendência até para aumentar. Por exemplo, as principais obras que estão neste momento em curso em Maputo são hotéis. E até já existe uma oferta bastante razoável e com alguma qualidade, mas pelos vistos o investimento continua nesta área. Os principais clientes são sobretudo os sul-africanos porque na costa deles não têm praias e aqui são lindíssimas. Mas também já vem muita gente da Europa. As ilhas de Bazaruto por exemplo, parecem ser muito frequentadas... parece que não ficam muito atrás das Seichelles.

Acho que por hoje é tudo, vão dando notícias.


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Nampula, Outubro 2003

No Projecto em que estou agora a trabalhar prestamos assistência técnica a alguns Municípios no desenvolvimento de estudos, projectos e obras.

Um dos estudos previstos para este ano na cidade de Nampula é o estudo do futuro aterro sanitário, com localização prevista numa zona fora da cidade, a cerca de 10 Km do centro.

Depois de preparados os documentos e pré-seleccionadas as empresas, foi lançado o respectivo concurso, tendo sido previsto, no decurso do mesmo, uma visita ao local.

No dia marcado para esta visita, fez-se um encontro prévio nas instalações do Município para algumas explicações e esclarecimentos aos concorrentes sobre os objectivos do estudo. Depois, seguimos para o local em duas carrinhas todo terreno, uma vez que a fase final do trajecto teria de ser efectuada pelo meio do mato, havendo mesmo uma zona em que o percurso teria de ser feito a pé.

Ao todo, eramos 8 pessoas, sendo 3 do Município, 3 das empresas concorrentes (entre as quais uma senhora) e 2 assistentes técnicos (eu e um colega).

Quando chegámos ao local onde deveríamos parar as viaturas para continuarmos o percurso a pé, decidimos que era melhor ficar alguém junto das viaturas, pois o terreno no local era muito arenoso e existiam escavações e armazenamento em montes de areia que, segundo informação dos elementos do Município, era vendida pelas populações locais.

Contudo, eram frequentes os roubos dessa areia por pessoas que em viaturas e sorrateiramente, se aproximavam do local, carregavam rapidamente a areia e fugiam. Isto fazia com que as populações ficassem sempre alerta a ver quando se aproximava algum veículo.

Foi por isso que ficaram junto às carrinhas 2 pessoas a quem o andar a pé pelo mato poderia também não agradar muito. Os restantes, seguimos então pelo meio dos arbustos e do capim, bastante secos nesta altura, procurando seguir os carreiros que as populações locais habitualmente utilizam nos seus percursos para as machambas. "Não se desviem muito dos caminhos existentes, nunca se sabe se ainda existem minas por aqui", disse alguém.

E lá fomos, pelo meio do mato, ver as condições do terreno onde se deveriam realizar os estudos.

Para além de pequenos arbustos e capim alto, completamente secos, apenas se viam alguns cajueiros e mangueiras, estas já bem carregadinhas de mangas, o que fez alguém anunciar: "mangueiras carregadas nesta altura é sinal de colheitas fracas nas machambas. Vai haver fome este ano!".

Havia algumas zonas desmatadas, com sinais de ali ter sido cultivado mandioca e amendoim. Mas, estava tudo quase completamente seco! Quando apressávamos o passo, até se levantava poeira e, de vez em quando, enormes lagartos saíam debaixo das folhas secas e atravessavam á nossa frente com grande velocidade.

A visita acabou por ser rápida. Em pouco mais de 10 minutos já todos tinham recolhido toda a informação necessária e tirado as fotos do costume, pelo que regressámos então ao ponto onde tinham ficado as viaturas e os outros elementos da comitiva.

Mas quando estávamos a chegar, começámos a ouvir barulhos, gritos de pessoas, parecia uma zaragata. Alguém disse: "Olhem, deve haver problemas por causa do negócio da areia!".

Acelerámos o passo e rapidamente verificámos que não havia problemas com os nossos colegas que tinham ficado, nem com as viaturas. E também nada se passava junto á zona de extracção da areia.

Mas havia um conflito ali bem perto, aparentemente uma discussão familiar.

Um homem, relativamente novo, gritava muito com uma mulher, também bastante nova. Esta tapava a cara com as mãos e chorava. Duas outras mulheres, também ainda novas, presenciavam a cena, junto do casal. Mantendo-se relativamente afastadas da discussão, pareciam contudo estar envolvidas no conflito pois, de vez em quando, proferiam algumas palavras na direcção do casal.

A discussão era em língua local e, segundo um dos representantes do Município, o homem acusava a mulher de não ter dormido em casa na noite anterior, e de lhe ter mentido, ao dizer que tinha ficado em casa de uma amiga pois esta estava mesmo ali presente e confirmava não a ter visto nessa noite.

A situação foi-se agravando e nós começámos a aproximar-nos para ver se, com a nossa presença, os ânimos serenavam.

Mas, de repente, enquanto gritava, o homem começou a agredir violentamente a mulher.

Olhávamos uns para os outros estupefactos e fomo-nos aproximando mais na certeza de que deveríamos ter de fazer alguma coisa para tentar acalmar a situação.

Mas foi pior. Quanto mais nos aproximávamos, mais o homem agredia a mulher com socos e pontapés, chegando mesmo ao ponto de ir a um arbusto próximo arrancar um ramo que depois desfolhou para vergastar a mulher. Esta, deitada no chão, a ser pontapeada e vergastada, apenas tapava a cara com as mãos, parecendo não querer oferecer grande resistência. Com a violência da agressão, parte do vestido foi rasgado, chegando mesmo a mostrar os seios, altura em que se pôde confirmar que era uma mulher ainda jovem, mas já com filhos, talvez até mais do que um, de tal forma os seios já descaíam.

Tudo se passava em segundos, que nos pareciam uma eternidade.

Apesar de termos a noção clara de que a nossa presença fez aumentar a ira do homem, também sentíamos que era necessário fazermos alguma coisa. "Ou vamos embora, ou tentamos chamar o homem à razão, porque, se continuarmos aqui a presenciar a cena, ele ainda acaba por matá-la, de tal forma ele está desvairado" disse alguém.

Então, fomos mesmo junto do casal e, os que sabiam o dialecto local, começaram a dirigir-se ao homem, para ele parar de fazer aquilo. Contudo, apesar de parar de vez enquando para dar algumas respostas, ele insistia na agressão à mulher.

De repente, pedi a alguém, "digam-lhe que vamos chamar a polícia!", pois lembrei-me que, no caminho, tínhamos passado por uma esquadra da polícia. Talvez este pretexto servisse para, de algum modo, abrandar os ânimos.

Então, perante a insistência dos nossos colegas que falavam dialecto local, o homem parou e começou a responder, dizendo não se importar que fossemos chamar a polícia. Até agradecia e, se nós os levássemos, poderiam mesmo ir até à esquadra!

Acedemos então a levá-los até à esquadra da polícia, até porque este pretexto já tinha servido para que parassem as agressões. O homem já tinha parado de bater e agora insistia com a mulher, puxando-a por um braço, para que viessem connosco à polícia. As outras duas mulheres pareciam agora querer afastar-se mais, como que a não quererem qualquer compromisso com a situação.

O homem chegou mesmo a vir até junto de uma das nossas carrinhas puxando a mulher por um braço mas, quando se preparavam para entrar, a mulher começou a fazer resistência e a murmurar algumas palavras, choramingando. O homem parou, proferiu algumas palavras e, sempre puxando a mulher por um braço, seguiu pelo caminho em direcção ao povoado onde moravam.

Esperámos um pouco até vê-los desaparecer no caminho para termos a certeza de que não ia haver mais agressões. Depois, já ao entrarmos para as carrinhas, alguém questionou: "como é possível, depois de tanta agressão, esta mulher desistir de se defender perante as autoridades?"

"Vocês nunca ouviram falar das mulheres macuas?", respondeu um dos representantes do Município.

E no regresso à cidade voltámos a falar novamente do projecto para o aterro sanitário da cidade. Eu, pelo menos, fazia-o tentando esquecer as cenas que tinhamos presenciado...


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Actualizado em 24-02-2005