Relatos de outros tempos

Lobito, 1963 - Uma Aventura no Pássaro Boi

Foi logo nos primeiros anos depois de termos mudado para o Bairro da Luz, nos arredores do Lobito.

Antes, tínhamos morado noutros Bairros, em zonas mais ou menos centrais da cidade, mas quase sempre à beira-mar, o que nos permitia passar as férias grandes praticamente sempre na praia.

Embora as férias grandes não calhassem numa boa altura para fazer praia, porque era na época do cacimbo em que para além das temperaturas mais amenas também o sol se escondia dias seguidos atrás da neblina, arranjávamos sempre qualquer coisa para fazer junto ao mar.

Ou jogávamos à bola. Ou íamos à pesca, por vezes depois de andarmos alguns quilómetros até às Portas do Mar ou até aos primeiros esporões, também já na zona da Restinga. Ou íamos ver os pescadores da Cabaia, a chegarem nas chatas à vela que tinham largado de madrugada para a pesca à linha, ou a lançar as redes para a pesca de arrasto a partir de terra (a “rasteira” como era conhecida por nós).

Também fazíamos laços na areia para apanhar carangueijos e gaivotas ou então, quando não havia calema, apanhávamos quitétas (ameijoas) movendo com os pés na zona de rebentação das ondas.

Outras vezes percorríamos todos aqueles quilómetros de areal até à foz do Catumbela onde, numas zonas alagadas, com água pela cintura e lutando contra as sanguessugas que se colavam ao nosso corpo, cortávamos troncos de bimbas que arrastávamos até lugares próprios onde ficavam a secar alguns dias até estarem em condições para fazermos os nossos próprios barcos para a pesca, arriscando nesses dias a regressar já fora de horas e ouvir ralhete lá em casa. É que afinal de contas, por essa altura, tanto eu como o meu irmão Alfredo, o meu companheiro de aventuras, tínhamos apenas nove e doze anos de idade respectivamente.

Mas isto foi até 1962. A partir deste ano as nossas férias grandes nunca mais foram passadas na praia pois o Bairro da Luz ficava na periferia da cidade e a alguns quilómetros do mar.

Mas nem por isso diminuíram os motivos para a aventura. Só que agora, em vez da praia ou o mar, era o campo ou o mato. Em vez da pesca nos barcos de bimba era a caça com fisgas (as xifutas). Em vez de irmos ver os pescadores, íamos ver as queimadas e os cortes de cana de açúcar na Cassequel, aproveitando uma ou outra cana com que nos deliciávamos, arriscando apanhar uma corrida dos guardas caboverdeanos sempre atentos e ameaçadores com as suas catanas afiadas.

Enfim, não faltavam motivos para aventuras. Saíamos de casa, andávamos alguns metros, e tínhamos logo as plantações de cana de açúcar e de palmeiras que se estendiam por vários quilómetros e que, juntamente com os canais de irrigação, facilitavam a vivência de muitas espécies animais e vegetais que nos proporcionavam momentos inesquecíveis.

Assim, à boa maneira dos livros de aventuras daqueles tempos (os famosos livros de cow-boys aos quadradinhos que as nossas mães não gostavam nada de nos ver a ler), à medida que íamos “desbravando o território” íamos dando uma designação aos sítios, normalmente em função de alguma característica especial da fauna ou flora ali existente.

Logo a seguir à estrada Lobito-Benguela, depois dumas árvores com muitos ninhos de janjas, começava um vasto campo de vegetação rasteira onde habitualmente pastavam algumas manadas de gabo bovino. Estes bovinos normalmente arrastavam consigo, quase sempre no dorso, uns pássaros muito lindos de bico encarnado, o que proporcionou que se designasse esta zona como “Pássaro Boi”.

Um pouco mais longe, já perto do Morro do Galo, havia um sítio com umas árvores baixas em cujos ramos encontrávamos pendurados uns morcegos grandes com o focinho comprido e os dentes salientes, pelo que o local se passou a chamar de “Pássaro Cão”.

Ainda mais distante ficava a nossa “Ilha Misteriosa”, na zona dos mangais entre o Compão e a Caponte, onde milhares de pássaros faziam os seus ninhos e cujo acesso era simplesmente uma verdadeira aventura.

E também havia alguns sítios onde podíamos pescar. Nas valas do sistema de irrigação da Cassequel apanhávamos camarões, santolas, lagostins de água doce e bagres às vezes bem grandes. E que espectáculo era ver os enormes cardumes de xipulos com as bocas à tona de água.

Naquele dia saímos de casa cedo e sem qualquer destino.

Como habitualmente era eu e o meu irmão Alfredo com mais um ou dois cambas de circunstância, vizinhos da rua ou apenas frequentadores dos mesmos locais de aventura, também eles já familiarizados com as novas designações dos sítios.

Atravessámos o Pássaro Boi, cruzámos com as habituais manadas de bovinos com os pássaros de bico encarnado no dorso, e vimos também algumas gambôas a esgravatar nas zonas mais arenosas, já depois dos aglomerados de chipipa onde normalmente pousavam enormes bandos de bicos de lacre e de torritos com o seu chilrear característico.

Até que chegámos a uma área de coqueiros que se situava junto da vala da Cassequel, no local onde ela se tornava mais acessível e que, por essa razão, também era o local escolhido pelo gado para beber água. Era um sítio onde habitualmente parávamos para descansar à sombra dos coqueiros ou simplesmente para molhar os pés na água da vala.

Desta vez alguém reparou que um dos coqueiros estava carregado de côcos já bastante grandes e, pelo aspecto, todos concordámos que deveriam ser deliciosos.

Então o meu irmão, que normalmente era o mais ágil e destemido, começou a subir pelo tronco desse coqueiro.

Mas quando já ia a meio, alguém lembrou que havia umas cobras que faziam o ninho na copa dos coqueiros e atacavam sempre que eram incomodadas, o que o fez logo desistir da subida.

Ficámos a olhar para os côcos e a pensar numa maneira de os conseguir alcançar.

Começou o meu irmão então aos saltos tentando alcançar uma ponta da ramagem do coqueiro, o que acabou por conseguir, dando depois esticões fortes com o objectivo de fazer estremecer o coqueiro para ver se conseguia fazer soltar algum dos côcos.

Mas de repente, num dos abanões mais fortes, em vez de um côco soltou-se uma pedra em direcção ao meu irmão, indo embater-lhe violentamente na testa. Com a cabeça a sangrar, cobriu a cara com as mãos e ajoelhou-se, deitando-se depois para a frente.

Tudo se tinha passado em poucos segundos. Estávamos ainda todos incrédulos com o que tinha acontecido ao meu irmão e, logo que começámos a correr na sua direcção, ele levantou-se repentinamente a gritar com a cara cheia de sangue e... de bosta de boi. É que, quando se deitou para a frente a sangrar e com a cara tapada com as mãos, nem viu que estava mesmo ali uma enorme bosta de boi... e acabou por se deitar em cima dela.

Momentaneamente ninguém sabia o que havia de fazer. Éramos crianças e ficámos muito assustados ao ver sangue. Mas aquela cara toda suja… depressa nos pôs todos a rir e lá acabámos por ajudar o meu irmão a chegar até à vala da Cassequel para se lavar, pensando logo na justificação que teria de se dar quando chegássemos a casa.

Assim acabaram as nossas aventuras nesse dia...



António Manuel Lopes Videira
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